No ano de 212 a.C., após um cerco de dois anos à cidade de Siracusa, na Magna Grécia, atual Sicília, esta foi capturada pelas legiões romanas. Quando a casa de Arquimedes – que com seus engenhos ópticos e mecânicos retardou ao máximo a queda da cidade – foi invadida pelos romanos, ele estava no quintal desenhando na areia suas figuras e estudos geométricos, quando um dos soldados pisou sobre os mesmos. Noli tangere circulos meos (não toque em meus desenhos), exclamou Arquimedes em seu precário latim, sendo imediatamente morto por uma lança, que destruiu fisicamente este velho filósofo e matemático. Mas não conseguiu eliminar o seu acervo intelectual, que, atravessando os séculos, chegou até nós.







Neste blog republicaremos também artigos da minha coluna semanal BRASILIANA, do jornal MONTBLÄAT editado por FRITZ UTZERI.




sexta-feira, 25 de março de 2016

Epitáfio para Manuela

Veja o primeiro nome da lista de dinheiro recebido da Odebrecht. 
Receber 3000.000,00 desta firma é ético?
Abaixo uma desomenagem que escrevi para esta farsante no ano de 2013.



Epitáfio para Manuela

Ela era jovem
até bonitinha –
que me perdoem as feministas
de mentirinha.
Dizia revolucionária
socialista-evolucionista-progressista.
Estudante virou deputada federal
assento no Planalto Central
carreira para prefeita municipal.

Um dia antigo camarada falou:
corrupção na latrina eleitoral
ela apenas sentenciou:
o público é apenas privada pessoal
o delator-detrator é um Zé-Ninguém.

Seus cabelos ficaram cor de acaju
toda jururu sebosa gordurosa
sumiu no plenário
apenas grande mar de olhos medrosos
bandeiras de cifrão.

Lá fora milhões de Zés-Ninguém
cafusos mulatos mamelucos
brancos negros índios:
devolvam nossos votos
o espetáculo acabou.

Na profunda cova do esquecimento
João Amazonas chorou.
Chora chora
a Revolução acabou

soterrou – a corrupção triunfou.

domingo, 20 de março de 2016

Dilma e seu Defunto Debaixo da Cama

Legais Sim! A "presidenta" ligou para um suspeito de graves crimes contra a Democracia, logo configura-se como um flagranre de conspiração criminosa. É aquela história, se em uma invasão de domicílio não autorizada, encontra-se um cadáver debaixo da cama, a Lei não vai mandar que devolvam!
Mas isto é assunto velho, que já comentei há oito anos atrás com a "Teoria Jurídica" do "Defunto Debaixo da Cama":
Ler mais no link abaixo:


Escutas clandestinas de telefones deveriam ser consideradas uma ofensa séria à democracia e...

segunda-feira, 7 de março de 2016

Cangaceiros e Torturadoras

Um artigo infelizmente atual...

          Tenho um velho hábito, herdado de meu pai, que é recortar notícias que considero interessantes, datá-las e guardar dentro de um livro que trate de um assunto correlato.  Esta prática, em geral nos propicia descobertas interessantes, como aconteceu outro dia ao retirar da estante o livro Cangaceiros e Fanáticos de Rui Facó.  Abaixo apresento em fac-símile alguns recortes que tratam da violência no nordeste brasileiro, há quarenta anos, e que estavam guardados entre as páginas deste livro.  A primeira notícia fala da saga do menino Pedro Gonçalves de Sá, preparado durante onze anos para vingar a morte de seu paiEste acontecimento teve os ares de uma tragédia grega, muito comum no nordeste brasileiro, tendo sido retratado na literatura por Adonias Filho em seu romance Corpo Vivo, que descreve a história de Cajango, criado por seu tio, o meio-índio Inuri, para tornar-se um jagunço cruel com os poderosos, da zona cacaueira baiana, que exterminaram a sua famíliaEm entrevista na época, o autor deste romance declarou que a história de Cajango era baseada em fatos reais.  As outras notícias falam da violência cometida pelos políticos e das barbaridades policiais.




Notícia 1 - Publicada no Jornal do Brasil, 23 de dezembro de 1967.


Notícia 2 - Publicada no Jornal do Brasil, 23 de dezembro de 1967.

          Enquanto estes recortes dormiram no interior de um livro durante quatro décadas, a violência no Brasil manteve-se ativa, apenas mudando a sua roupagem.  Os políticos nordestinos não ficam mais por apenas dando tiros uns nos outros e vivendo da indústria da secaEles, em certo sentido, progrediram – graças à deformação da representação eleitoral, imposta pela ditadura e sacramentada pela nossa Constituição – e hoje se uniram aos empresários do sudeste, deram empregos a alguns acadêmicos, cientistas, jornalistas e intelectuais, incluindo seus familiares e filhos ineptos, para construírem a maior máquina criminosa para assaltar os cofres públicos deste país, em uma ação temperada por uma pseudo-ideologia esquerdista.  O triste disto é que enquanto até os traficantes de drogas do Rio de Janeiro investem em atividades semi-ilegais, como as “vans” do transporte alternativo, esta máfia é incapaz de investir em uma simples fábrica de vassouras, de modo a dar algum emprego aos seus conterrâneos, que acabam na prostituição, em subempregos no Rio ou São Paulo ou indo devastar a Amazônia na luta pela sobrevivência.
          Decorrente desta corrupção generalizada, a criminalidade cresceu nos centros urbanos onde o contrabando, tráfico de drogas e uso de armas militares contaminam a sociedade e o poder político, arrombando até as portas dos Tribunais Superiores
          Enquanto inocentes são vítimas de uma violência generalizada que impera em nosso país, o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, fica burocraticamente olhando os aviões que caem, o Ministro da Justiça, Tarso Genro, ainda tenta manter uma pose de grande jurista apenas dando declarações vazias para esconder a sua incompetência e o Secretário Nacional de Segurança Pública, Antonio Biscaia, continua desaparecido para não prejudicar o seu empreguinho.  Mas, no Rio de Janeiro temos muita ação.  O Governador Sérgio Cabral faz um marketing da violência com suapolítica de enfrentamentoque consiste em dar uns tiros nas comunidades carentes, de acordo com aquela máxima fascista de que todo pobre é ladrão até provar o contrárioEste governador até hoje não apresentou um plano para resolver a crescente violência sob a sua administração e ainda fica devendo uma explicação de qual a diferença entre meia corrupção e meia honestidade, que a contravenção corre solta em seu Estado



Notícia 3 - Publicada no Correio da Manhã, 10 de dezembro de 1968

          O fato mais bárbaro e violento que presenciamos nestes dias, mostrando que a nossa sociedade ainda está em níveis primitivos na questão de direitos humanos, foi a prisão de uma jovem de quinze anos em uma cela masculina, no Município Paraense de Abaetetuba.  A jovem foi mandada para o seu martírio por uma mulher, a Delegada Flávia Verônica e foi mantida em seu estado de sofrimento pela juíza Clarisse Maria de Andrade que teve conhecimento do caso e não tomou nenhuma providênciaIsto tudo em um Estado governado por uma mulher, Ana Julia Carepa, do PT, e que tem também como Secretário de Segurança Pública outra mulher, Vera Lúcia Tavares.  Em nota oficial estas autoridades confessam indiretamente que tinham conhecimento deste caso bem como de outros que afloraram, que declararam que no início deste governo petista o Pará contava com 132 municípios com delegacias, das quais apenas seis com celas especiais para mulheres e que no atual governo construíram e reformaram somente onze delegacias com celas femininas.  Para agravar a desídia destas autoridades, enquanto a menina L.A.B., de quinze anos, com um metro e meio de altura e pesando trinta e cinco quilos, era mantida presa, estuprada, torturada e queimada com pontas de cigarros em uma fétida prisão paraense, a governadora petista do Pará, Ana Julia Carepa, divertia-se em Brasília em uma festa amazonense patrocinada com recursos públicos, balançando o seu traseiro – cultivado com muita mordomia –, dançando o carimbó com o representante da Igreja Universal no governo Lula, o Vice-Presidente José Alencar – em uma espécie de reedição da dança da pizza da deputada Ângela Guadagnin ao comemorar a impunidade de um colega petista por ocasião do episódio do “valerioduto” no ano passadoPara completar este quadro de total descaso pelo sofrimento humano a Ministra Nilcéia Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, apenas queixou-se da “triste coincidência” do caso da menina torturada com a festa promovida pela sua administração, no Canecão, na cidade do Rio de Janeiro, com a realização do showPor uma vida sem violência”, com a participação de vários cantores famosos, tudo pago com o dinheiro públicoPara agravar mais ainda este quadro criminoso, o Ministro da Justiça Tarso Genro, do alto de seu pedestal jurídico, declarou: Todos nós nos sentimos violentados e agredidos, mas lamentavelmente este tipo de violação de direitos humanos no Brasil não é incomum, o que em bom português significa dizer, isto não é comigo
          Este caso leva-nos a duas reflexões: a primeira é que uma maior participação feminina no poder melhoraria a sociedade brasileiraEste mito foi desfeito, que o presente caso revela um time de mulheres totalmente complacentes e insensíveis com a torturaOutro ponto importante é que a impunidade de Lula, com essa história de afirmar que nunca sabe de nada, é uma chaga que deve ser combatida em nossa sociedade, que um Presidente da República não pode desconhecer crimes em sua administração, assim como a Governadora, a Secretária de Segurança, a Juíza e a Delegada do Estado do Pará e os Ministros que não conseguem resolver problemas com responsabilidade, devem ser punidos e afastados.  Portanto, devemos exigir uma punição severa para estas autoridades que parecem zombar dos preceitos mínimos de civilização
          Afinal as nossas leis são apenas decorativas ou para valer?

Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2007.
Teócrito Abritta

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O Carnaval Empacado ou da Mudança?

A velha Política, muito blábláblá, um Brasil que retrocede: Carnavais do passado...
Republico este artigo como lembrança de Fritz Utzeri, editor do Montbläat, falecido em 4 de fevereiro de 2013.


          Carnaval é uma festa que começa no primeiro domingo anterior à Quarta-feira de Cinzas e que teve origem na Grécia antiga.  Com o advento do Cristianismo, passou a ser uma festa comemorada em oposição ao rigor da Quaresma.  A palavra Carnaval, de origem latina, significa “festa da carne”, mas hoje em dia não vamos ser tão radicais assim e pensar apenas em muita alegria e divertimento.
          Felizmente o povo brasileiro tem uma infinita capacidade de superar dificuldades e, nos dias da folia, certamente esquecerá um pouco destas tragédias que andam por aí.
          Na nossa terrinha, em plena crise econômica, empreiteiros e políticos lucram como nunca graças a um pomposo Plano de Aceleração do Crescimento, o tal de PAC, que, a par dos rios de dinheiro que consome, continua empacado, enquanto Dilma Rousseff simplesmente esqueceu-se de mostrar competência – deixando de lado o “apagão” aéreo e a coordenação de treze ministérios para combater o desmatamento –, para assumir uma função que está mais para “primeira dama de Canapi”.  E Lula? Este sim vai ter um bom Carnaval, viajando bastante e ficando até com a voz alterada e olhos avermelhados de tanto discursar por aí, pregando a ignorância, a irresponsabilidade e a subserviência, só não falando nas tais de obras de infra-estrutura, como saneamento, estradas, educação e saúde pública.  Afinal de contas o divertido é perdoar desmatadores e devedores da Previdência Social.
          No plano internacional, a única medida prática e objetiva do “Change” e “Yes, we can” do Presidente Obama, será intensificar a guerra no Afeganistão, levando mais morte e sofrimento a um povo que quer apenas viver em paz criando as suas cabras em uma região das mais remotas do nosso planeta.  Será um Carnaval de terror e imolação de inocentes. 
          Como as cenas carnavalescas mostradas na televisão e nas revistas de fotografias se repetem ano após ano, nestes tempos de crise não vamos gastar dinheiro comprando novas revistas.  Simplesmente vamos tirar do baú exemplares de vinte ou trinta anos atrás, onde, abstraindo-nos um pouco dos penteados, o Carnaval parece que é sempre o mesmo.  Assim, vamos substituir o desânimo, para não falar em violência, dos atuais líderes mundiais, para retroceder aos anos sessenta, quando, mesmo com a Guerra Fria, todos dançavam alegremente e havia menos sangue, como mostra a charge abaixo.

Deixo como exercício a identificação de cada um dos líderes mundiais mostrados na charge e os seus motivos de alegria.  No caso, o Presidente da França, Charles De Gaulle, está dançando para não chorar, perdeu a Guerra da Lagosta, melhorando, na época, a auto-estima dos brasileiros, hoje tão maltratados na Espanha, Inglaterra, Suíça e até no Paraguai e Bolívia.
          Como Carnaval também é cultura, vamos lembrar antigas letras de músicas carnavalescas que parecem atuais como nunca.

Cachaça (1953)
(Marcha de Mirabeau Pinheiro,
L. de Castro e H. Lobato)

Você pensa que cachaça é água
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E água vem do ribeirão
Pode me faltar tudo na vida
Arroz, feijão e pão
Pode me faltar manteiga
E tudo mais não faz falta não
Pode me faltar o amor
Isso até eu acho graça
Só não quero que me falte
A gostosa da cachaça

A Fonte Secou (1954)
(Samba de Monsueto Menezes,
Tufy Lauar e Marcleo)

Eu não sou água
Prá me tratares assim
Só na hora da sede
É que procuras por mim
A fonte secou
Quero dizer
Que entre nós tudo acabou.
Teu egoísmo me libertou
Não deve mais me procurar
A fonte do meu amor secou
Mas os teus olhos
Nunca mais hão de secar

Mamãe eu Quero (1937)
(Marcha de Vicente Paiva e Jararaca)

Mamãe eu quero
Mamãe eu quero
Mamãe eu quero mamá
Dá a chupeta
Dá a chupeta
Dá a chupeta pro bebê não chorá
Dorme filhinho
Do meu coração
Pega a mamadeira
E vem entrá no cordão

UM FELIZ CARNAVAL!

Montbläat
Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 2009
Teócrito Abritta



sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Amazônia: Deixa o Homem Destruir!



          Neste próximo 4 de fevereiro fazem três anos de falecimento do jornalista Fritz Utzeri e da morte de seu jornal independente Montbläat.  Como uma pequena lembrança republico este artigo, onde já denunciava a conivência criminosa deste governo com o crime organizado e a destruição ambiental, que agora culminou com a destruição total da bacia hidrográfica do Rio Doce, aniquilando com a vida e a paisagem numa área 70 mil quilômetros quadrados, afetando a vida de milhões de pessoas nos estados de Minas e Espírito Santo, bem como afetando o ambiente marinho. 
          O grave de tudo isto é que os criminosos continuam delinquindo sob as asas protetoras dos governos federal e estadual.


           O último artigo de Leonardo Boff, Ecologizar a Política é uma peça trágica dos descaminhos dos brasileiros perdidos diante de um governo que substituiu qualquer ideologia de desenvolvimento pelas cestas básicas com fins puramente eleitorais.  Boff tal qual a agulha de vitrola quebrada que arranha um velho LP na mesma faixa, produzindo um som dissonante e ininteligível, em seu artigo fala da opção preferencial pelos pobres e excluídos feita por Lula, enquanto este, cercado pelos pastores do atraso, negocia os seus apoios com o pior da sociedade brasileira.  O nosso prezado teólogo da libertação está totalmente alienado da realidade que é dominada pela falsa oposição do PSDB e PFL que têm os mesmos objetivos do PT, das falsidades ideológicas dos partidos que se dizem de esquerda e rastejam por migalhas de poder e dos demais partidos de direita com seus olhares brilhando por dinheiro sob a liderança dos pastores da ideologia da enganação.
           Quanto às esperanças ecológicas e preservacionistas de Boff no governo Lula, o tom foi dado às vésperas da eleição presidencial com o anúncio da diminuição do desmatamento da Amazônia feito pela desmoralizada Ministra Marina Silva, acompanhada por seus príncipes, aqueles representantes de ONGs irrigadas pelo dinheiro público.  Ou seja, nada será feito para salvar a Amazônia.  Apenas muita propaganda.
          No governo Lula foram devastados 84,4 mil km2 de florestas, sendo a maior devastação em um quadriênio contabilizada desde 1988 quando o desmatamento começou a ser monitorado a partir de imagens de satélites pelo INPE.  De qualquer maneira o patamar de devastação comemorado eleitoralmente pelo governo equivale a 13.137 km2, ou seja 1,5 km2 por hora ou 5 campos de futebol por minutoEm 4 anos, neste ritmo, serão devastados o equivalente a 16 milhões de campo de futebol (ver Folha de S. Paulo, 8/11/2006).  Devemos ainda considerar que para analisar o desmatamento o INPE utiliza normalmente em sua metodologia cerca de 220 imagens distribuídas por toda Amazônia, sendo que desta vez a amostra foi reduzida para 34 imagens, sendo que 14 no norte de Mato Grosso e 9 em Rondônia.  Em um vôo comercial de Cuiabá a Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, poderemos observar durante os 800 km do percurso um contínuo de plantações de soja, milho, algodão e pastos e, portanto com poucas florestas para destruirQuem fizer uma viagem por terra de Porto Velho a Guajará-Mirim nas margens do rio Mamoré, fronteira com a Bolívia, sentirá uma angústia imensa nos seus 300 km de percurso que observará pastos degradados, balsas de mineração com suas tripulações tremendo de malária, tudo sob o testemunho das ruínas da Ferrovia Madeira-Mamoré e das meninas prostitutas abandonadas por todos e por DeusLogo nestas regiões praticamente devastadas dificilmente detectaremos alterações no meio ambiente, com o agravante de que a metodologia adotada pelo Governo brasileiro visualiza desmatamentos em terrenos acima de 20 hectaresPor outro lado os critérios da análise da destruição do meio ambiente deveriam considerar também a contaminação das águas e do solo por defensivos agrícolas e herbicidas, as atividades de caça e pesca predatória, bem como todas as afrontas ao Código Florestal.
           Para os que consideram a destruição da Amazônia como impossível diante do seu gigantismo, sendo apenas mais um blá-blá-blá, “dos que não querem deixar o homem trabalhar”, vamos comentar as transformações no norte de Mato Grosso ocorridas nos últimos anos, onde no início da década de 70, tínhamos uma densa e intocada floresta tropical povoada de tribos indígenas, algumas ainda sem contato com a nossa civilizaçãoEntre os anos de 1970 e 1973 o governo militar lança o Plano Integração Nacional (PIN) que seria uma política desenvolvimentista acompanhada de uma grande migração interna dos miseráveis do nordeste para que não sucumbissem às tentações de movimentos revolucionários e resolvesse também o problema da falta de terras para os filhos dos agricultores do centro-sul.  Mas os poucos milhares de colonos transferidos acabaram expulsos da região devido à valorização da terra com o governo dando prioridade a grandes empresas agropecuárias e de mineração.  Nesta época foi aberta a Rodovia Cuiabá-Santarém, a conhecida BR 163, pelo 9º BEC (Batalhão de Engenharia e Construção) com as terras ao seu redor sendo repassadas para testas-de-ferro particulares, e posteriormente sendo redivididas e vendidas em glebas menores conforme eram valorizadas pela abertura de estradas vicinais pelos Batalhões RodoviáriosAssim foram fundadas as cidades de SINOP, Mutum, Alta Floresta em 1978 e Juruena, Paranaíta, Matupá e outras mais em 1980.  na região de Alta Floresta um único proprietário desmatou uma área de aproximadamente 200 km x 200 km.  No site do fotógrafo Pedro Martinelli:
(www.pedromartinelli.com.br) são mostradas as fotografias da construção da BR 163, bem como a saga dos Kranhacãrore após seus primeiros contatos com os brancos em 1973 sob a responsabilidade dos sertanistas Orlando e Cláudio Villas Boas que tinham a certeza de não estar salvando os índios e sim adiando mais um pouco a sua destruição cultural e física.  Hoje nesta região temos a convivência de uma das maiores riquezas agropecuárias do mundo com um rosário de crimes ambientais que podem trazer sérias conseqüências futuras.  Não são respeitados em geral o limite para a derrubada de apenas 20% das matas nas propriedades particulares, não existe respeito na conservação das matas ciliares, nem cuidados na aplicação dos defensivos agrícolas.  Assim rios de porte como Teles Pires e o Juruena levam todo o lixo químico somados ao mercúrio das atividades de mineração, contaminado o Rio Tapajós da Bacia Amazônica.  Para o sul o rio Cuiabá contamina e assoreia o Pantanal Mato-grossense.  Para oeste o Guaporé leva a desgraça e para o leste o Xingu está na iminência de um golpe de misericórdia, pois uma pequena valorização da soja no mercado internacional fará baixar a moto-serra da destruição.  O que é impressionante é a facilidade com que se destroem até mesmo as terras protegidas.  Quando um grande “colonizador” tem interesse por uma área sob proteção, ele primeiramente se articula com os chamados representantes dos movimentos sociais que abrem trilhas e são orientados a cortar apenas as madeiras nobres como, por exemplo, o mogno (que tem a sua exploração proibida no Brasil).  Depois temos as clássicas invasões dos chamados “sem terras” que queimam tudo, fazem suas roças e providenciam a desentoca, ou seja, a retirada de tocos e raízes remanescentes.  No ato seguinte atuam neste teatro trágico os jagunços a soldo de grileiros e as terras são repassadas a grandes empresas de pecuária e finalmente após os pastos serem sucessivamente queimados, a terra está limpa para a entrada de modernas máquinas agrícolas para plantação de grãos.  Como podemos ver várias etapas deste processo só serão detectadas por imagens aéreas meses depois.  Quem tiver a oportunidade de visitar, por exemplo, a cidade de Alta Floresta, ficará impressionado com o número de serrarias e o fluxo constante de caminhões carregados de toras de madeiras, isto em uma região onde legalmente não existem mais árvores para serem cortadas.  Esta situação irá se agravar com o retorno do asfaltamento da BR 163 anunciado pelo governo no dia 5 de junho último - Dia Mundial do Meio Ambiente, quando também anunciou a criação burocrática do Parque Nacional Juruena, o terceiro maior do Brasil com 1,9 milhão de hectares, mas que infelizmente já tem sua área furada por trilhas de madeireiros como se fosse uma peneira.  Agora cabe uma pergunta, porque não existem barreiras nas estradas e rios amazônicos e uma fiscalização eficiente de toda a documentação ligada ao setor agropecuário e madeireiro?  A resposta foi dada por Lula em recente elogio a Ministra do Meio Ambiente: “Você está provando que é possível, ao invés de agente proibir, agente continuar ensinando a fazer as coisas certas neste país”.  Na realidade o governo atual não tem nenhum interesse em tocar nesta sociedade “caixa dois” que com a mesma eficiência que destrói a natureza auferindo lucros astronômicos, já negocia com Lula cargos e vantagens em função de seus resultados eleitorais frutos da enganação do povo com as falsas promessas de progresso. 
          Assistimos também a falácia das declarações de Lula após as eleições (tão saudadas por Leonardo Boff) de que governaria preferencialmente para os pobres e excluídos.  Pesquisas do Imazon (www.imazon.org.br) em 407 municípios da Amazônia mostram que o desmatamento a longo prazo piora a vida da população e que após a depredação os investidores desaparecem desmistificando o mito de que o sacrifício da natureza é o preço para o progresso.
          Esta “sociedade caixa dois” tem em seu topo os empresários desonestos acompanhados de ministros, desembargadores, políticos, líderes de ONGs desonestas, altos servidores públicos e vamos por afora.  O extrato médio é composto por pequenos empresários ligados ao crime organizado, chefes de grupos de extermínio, gatos (que fornecem mão de obra quase escrava), grileiros, os filhos ineptos do poder abrigados em ONGs e órgãos públicos etc.  A base desta sociedade é formada por todos aqueles que lutam desesperadamente para simplesmente sobreviverem!  Nela encontramos garimpeiros, mergulhadores, operadores de moto-serra, caçadores, pistoleiros de aluguel, piloteiros, motoristas e vários profissionais levados para a atividade criminosa simplesmente por ser a única opção disponível para a sua sobrevivência.  Uma pessoa analfabeta e sem nenhum conhecimento pode ganhar até R$ 800,00 mensais operando uma moto-serra em uma das “invasões sociaisonde existe pressa no abate do mogno e enquanto na baixada fluminense um pistoleiro ganha em torno de R$ 200,00 para liquidar uma pessoa comum, na Amazônia pode ganhar até dez vezes mais para liquidar um funcionário do IBAMA de nível médio ou ascender ao topo desta sociedade criminosa com o assassinato de um ser humano com a grandeza da freira Dorothy Stang em fevereiro de 2004.



Descaminhos da Amazônia, foto aérea próxima a Alta Floresta.
Foto T.Abritta, 2005.

          Portanto o processo de desmatamento está fortemente ligado ao populismo eleitoral sempre avesso a promoção social com educação e saúde pública.  Esta questão é tão preocupante que o setor da Igreja Católica progressista e não comprometido com o populismo escolheu o tema “Amazônia” para a Campanha da Fraternidade da CNBB em 2007.
  Para terminar uma pequena história infelizmente real.  Há uns oito anos viajando pelo Maranhão quando passei pela cidade de Tutóia todos me cumprimentavam efusivamente e para o meu espanto fui informado por um vereador local que me confundiam com o Prefeito da Cidade que apenas conheceram durante a última eleição e que morava em São Luís nunca mais tendo retornado a esta cidade.  Aproveitei e sugeri ao vereador uma campanha de recolhimento do lixo doméstico que era jogado nas ruas ou na porta do vizinho.  O parlamentar após coçar a cabeça disse que isto era impossível, pois em time que está ganhando não se mexe e, além disso, seria acusado de chamar o povo de porco.  Coincidentemente esta criativa frase faz parte das últimas declarações de Luiz Inácio Lula da Silva, o Supremo Mandatário da Nação!

Referências:
- Patrimônio Ambiental Brasileiro, Wagner Costa Ribeiro (organizador)
  EDUSP, São Paulo - 2003.
- Atlas de Conservação da Natureza Brasileira, Unidades Federais
  Metalivros, São Paulo – 2004.
- O Livro de Ouro da Amazônia, João Meirelles Filho
  Ediouro, Rio de Janeiro – 2004.
- Atlas Geográfico de Mato Grosso, Leodete Miranda e Lenice Amorim
  Entrelinhas, Cuiabá - 2001.
- Saudades do Brasil, Claude Lévi-Strauss
  Companhia das Letras, São Paulo – 1994.

Rio de Janeiro, 19 de novembro de 2006
Teócrito Abritta